Inclusão de pessoas neurodivergentes transforma vidas e fortalece cultura organizacional, destaca influenciadora digital em evento do MPT

Tábata Cristine alertou para a vulnerabilidade econômica das pessoas com deficiência e defendeu que ambientes corporativos empáticos promovem saúde mental e produtividade

CAMPINAS (SP) – A importância da inclusão no mercado de trabalho vai muito além do cumprimento de cotas; trata-se de romper ciclos de pobreza e garantir a autonomia de pessoas historicamente marginalizadas. Esta foi a tônica da apresentação da influenciadora digital e ativista Tábata Cristine durante o evento virtual "Neurodiversidade e Inclusão no Mundo do Trabalho", promovido pelo Ministério Público do Trabalho na 15ª Região.

O evento foi realizado pela Coordenadoria Nacional de Promoção da Igualdade de Oportunidades e Eliminação da Discriminação no Trabalho (Coordigualdade) na 15ª Região, com a participação de dezenas de representantes de empresas do interior paulista, incluindo profissionais de recursos humanos e gestão de pessoas. A iniciativa integra o Projeto Nacional “Inclusão da Pessoa com Deficiência e Reabilitados no Mercado Formal de Trabalho”, que tem como objetivo aumentar a contratação de pessoas com deficiência e reabilitados, garantindo ambientes de trabalho acessíveis e inclusivos, bem como sensibilizar a sociedade para a eliminação da cultura capacitista e assistencialista.

Diagnosticada com autismo na vida adulta, Tábata também convive com TDAH e bipolaridade, e transformou sua experiência pessoal em ativismo digital. Com mais de 135 mil seguidores no Instagram (@tabata_meumundoatipico), ela produz conteúdo sobre autismo, TDAH e saúde mental, abordando temas como inclusão, combate ao capacitismo e desafios enfrentados por pessoas neurodivergentes, especialmente mulheres. Além das redes sociais, é palestrante e ministra cursos.

Discriminação e gênero – Na sua exposição, ao abordar a realidade socioeconômica, Tábata trouxe dados alarmantes sobre a desigualdade de renda e os custos familiares. Segundo ela, famílias com filhos autistas têm despesas três vezes maiores do que a média, muitas vezes em lares chefiados apenas por mulheres que enfrentam o abandono parental.

A situação se agrava ao analisar o mercado de trabalho sob a ótica de gênero e deficiência. "Mulheres com deficiência recebem, em média, metade do salário de um homem sem deficiência", pontuou Tábata, citando dados do IBGE para ilustrar um "ciclo de pobreza, miséria e falta de esperança" que precisa ser combatido com oportunidades reais de emprego.

Dignidade e saúde mental - Para além dos números, a influenciadora enfatizou o impacto humano da contratação. Tábata relatou como a oportunidade de trabalho afeta diretamente a saúde mental e a autoimagem da pessoa neurodivergente, que muitas vezes cresceu sendo excluída de grupos sociais e escolares.

"A sociedade está o tempo todo falando que somos inadequados. Mas quando uma empresa diz 'sim' para a gente, uma coisa muda. É como se talvez a gente não fosse tão ruim assim para o mundo, porque fomos escolhidos dessa vez", afirmou a palestrante, destacando que o emprego oferece a autonomia e a dignidade necessárias para que a pessoa "possa viver e não apenas sobreviver".

Benefícios para as empresas - Sob a perspectiva corporativa, Tábata reforçou que ambientes diversos trazem maior agilidade na resolução de problemas, melhoram a relação com investidores e reduzem a vulnerabilidade legal das companhias. Contudo, ela destacou que o maior ganho é o fortalecimento da cultura organizacional.

Segundo ela, a verdadeira inclusão exige um ambiente onde o respeito e a empatia já estejam consolidados entre todos os colaboradores. "Você não vai conseguir incluir o diferente se você está brigando com o igual. Como é que eu vou ver valor no diferente se eu não vejo valor naquilo que se parece comigo?", questionou.

Ao final, Tábata compartilhou sua própria experiência positiva em uma empresa de Campinas, onde o tratamento respeitoso resultou em aumento de produtividade e engajamento. "Eu ia para o trabalho feliz, coisa que não existia antes. Pessoas felizes e que se sentem seguras produzem mais", concluiu.

O evento contou com a participação da coordenadora nacional da Coordigualdade, Danielle Olivares Corrêa, e da coordenadora regional da Coordigualdade na 15ª Região, Fabíola Junges Zani.

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