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Destinação social do MPT em pesquisa oncológica atinge patamar internacional com publicação na revista The Lancet

Estudo financiado com recursos do caso Shell-Basf revela novos dados sobre a incidência de câncer no Brasil e reforça a importância de centros de pesquisa molecular para a saúde pública e ocupacional

CAMPINAS (SP) - A utilização estratégica de recursos oriundos de condenações por danos morais coletivos acaba de gerar um novo marco para a ciência brasileira. Um estudo detalhado sobre o perfil epidemiológico e molecular do câncer no Brasil foi publicado recentemente na prestigiada revista científica The Lancet Regional Health – Americas. A pesquisa é fruto do trabalho realizado no Centro de Pesquisa Molecular em Prevenção do Câncer do Hospital de Amor, em Barretos, cuja construção e manutenção foram viabilizadas integralmente com verbas destinadas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) a partir do histórico acordo judicial do caso Shell-Basf.

O centro de pesquisa, que integra um projeto orçado em aproximadamente R$ 70 milhões (que também contemplou a construção de uma unidade de prevenção do câncer em Campinas, além da aquisição e montagem de cinco carretas para exames móveis e educação em saúde), tem se consolidado como uma unidade de referência na investigação de fatores ambientais e ocupacionais que contribuem para o desenvolvimento de neoplasias. O estudo ora divulgado pela Lancet analisa as tendências de incidência e mortalidade por câncer no Brasil para o triênio 2026-2028, destacando o aumento de casos de tumores de cólon e reto, além das disparidades regionais que afetam o diagnóstico precoce no Sistema Único de Saúde (SUS). A pesquisa fornece dados fundamentais para a formulação de políticas públicas de vigilância em saúde, especialmente no que tange à exposição de trabalhadores a agentes carcinogênicos.

O legado do caso Shell-Basf - A origem dos recursos que sustentam essa produção científica remonta a uma das maiores conciliações da história da Justiça do Trabalho brasileira, firmada em 2013. O caso Shell-Basf envolveu a contaminação de centenas de trabalhadores e do meio ambiente em uma planta industrial de agrotóxicos no município de Paulínia (SP). O acordo de R$ 200 milhões a título de dano moral coletivo permitiu ao MPT direcionar investimentos para instituições que aliam o atendimento direto à população à investigação científica de ponta, transformando uma tragédia socioambiental em um benefício contínuo para a sociedade.

O médico oncologista e pesquisador Rui Manuel Reis, coordenador da pesquisa e diretor executivo do Instituto de Ensino e Pesquisa (IEP) do Hospital de Amor, ressalta que o apoio do MPT foi a viga mestra para que o Brasil pudesse produzir ciência de relevância global. Ele enfatizou a expansão dessas atividades para outras regiões do país, como Porto Velho (RO), onde novas unidades de pesquisa e ensino estão sendo inauguradas para ampliar o rastreamento e o estudo de tumores em populações vulneráveis.

"A voz dada a este trabalho, com o apoio do Ministério Público do Trabalho, é fundamental para que possamos demonstrar por que esta publicação é importante e qual o impacto futuro que esses dados terão na vida dos pacientes e na prevenção da doença", afirmou o pesquisador. Reis destacou ainda que o apoio do MPT foi "essencial para a execução" do projeto, permitindo não apenas o tratamento da doença, mas a investigação de suas causas moleculares e ambientais com equipamentos de tecnologia avançada.

Impacto científico e social - A publicação na The Lancet valida a seriedade do investimento realizado pelo MPT e pela Justiça do Trabalho. Ao focar em biomarcadores e no rastreamento precoce, o estudo busca reduzir a mortalidade e identificar como fatores do ambiente de trabalho podem predispor certas categorias profissionais ao câncer. Com a consolidação do Centro de Pesquisa Molecular em Barretos e a expansão para unidades afiliadas, o legado do caso Shell-Basf segue gerando conhecimento técnico-científico capaz de proteger as futuras gerações de trabalhadores brasileiros.

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